quarta-feira, 18 de março de 2009

André


André. André de doce e meigo olhar. André o sonhador.
Abriu a porta de casa e desceu as escadas em passo acelerado. O porquê desconhecia-o, apenas sentia um vibrar estranho que lhe corria em cada veia do seu corpo. Correu para a rua.
Ao contrário do que havia visualizado através da sua janela, não estava um sol quente e luminoso, mas sim uma noite arrepiante e gelada. Sem que conseguisse controlar, as lágrimas pincelaram o seu rosto de dor e tristeza. Parou de correr.
Um jardim que desconhecia convidou-o a sentar-se num banco próximo, como se o chamasse para um encontro consigo mesmo. Não lutou, percebeu que chegara a altura de arrumar o roupeiro por completo e deitar fora o que já não precisava. Levantou-se em silêncio e caminhou por entre as luzes da cidade.
O rio. Deixou que o vento soprasse o seu corpo, e assim se elevava para além de si próprio. André crescia ao mesmo compasso que aquela noite ganhava vida. Sorriu e deixou os seus medos e desilusões afogarem-se nas águas sujas do Tejo.
Estava agora rodeado de pessoas, em ruas cobertas de portas e desejos. Um cheiro a droga e a álcool que lhe penetrava violentamente as narinas. Quis deixar de respirar. Quis fugir. Mas os seus pés mantinham-se cimentados nas pedras da calçada. Percebeu que estava mais sozinho do que imaginara e isso não o assustou, era agora Fénix e as cinzas já haviam voado para longe. Gritou!
Já não estava mais ali. Fechou os olhos e viu a sua vida num sopro, a passar mesmo ali à velocidade da luz. Fraquejou e deixou cair-se nos braços de algo. Não percebeu o que era, pois estava demasiado inconsciente. Deixou-se levar.
André sonhou. Sonhou tudo o que julgara poder sonhar. Respirou fundo e abriu os olhos. Agora, a planície, o vazio, a ausência de tudo, apenas ele e o mundo. Ao fundo o sol nascia clareando o seu rosto amassado pela vida. E sem qualquer explicação choveu. Uma chuva forte, agressiva, e ele nu, confuso!
Uma poeira de pó. Um cavalo branco correndo na sua direcção. Não conseguia visualizar quem o comandava, mas sentia o seu coração disparar, um batimento cardíaco rápido, um sorriso que não conseguia controlar, uma adrenalina crescente no seu corpo... um suspiro.

Ainda hoje não sabe quem ou o que vinha até ele, mas mantêm viva a esperança de um dia descobrir. André acordou despido na sua cama, molhado pelo suor que escorria no seu corpo. Abriu a janela e o sol brilhava no seu esplendor. Dentro de si não mais aquela dor, não mais aquela mágoa, não mais uma tristeza avassaladora. Agora percebia que tudo tem um propósito e que não pode desistir nunca! A porta está aberta, e o mundo aguarda as sua pegadas.
É tempo de virar a página, de seguir em frente, de não temer. André criança, agora quase Homem, vai amadurecendo com a viragem das horas e sabe que nada o fará parar. A chama continua acesa no seu coração e enquanto acreditar no cavalo branco (que pode ser tanto mais quanto o que imagina), saberá que vale a pena.

André. André de doce e meigo olhar. André o sonhador. Deixou a porta aberta e os sonhos dentro do seu quarto.
André. André de doce e meigo olhar. André o descobridor. Anda por aí sem medo, encantado com a dádiva de dar e receber. Com a certeza que o mundo é seu e ele do mundo.
André.
André vai chegar lá!
Vai encontrar riquezas julgadas desaparecidas.
Chegar onde jamais ousara chegar.
Não serão batalhas esquecidas.
Com o seu doce e meigo olhar...
André!

2 comentários:

Peter_Pan disse...

adorei adorei adorei, enquanto lia o texto arrepios e lagrimas corriam-me pelo rosto.. obrigado por tudo =)*******

Peter_Pan disse...

Resta-me apenas acrescentar que está na altura de seguir em frente e deixar de lado tudo o que me magoa, todos os maus fellings, todas as mas vibrações, só assim o cavalo branco se torna mais visivel e talvez assim consiga algum dia visualizar o rosto de quem comanda esse belo animal