sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Adormeço em mim


Encosto a cabeça na almofada, o meu corpo estendido sobre o colchão. A única luz que me ilumina é a da lua, da noite que aguarda lá fora pelo sol, acompanhada das estrelas, essas imensas que representam cada história minha. A minha mente salta de dentro de mim, libertando-se num acto mágico e viaja pelos recantos de outras vidas. Desloco-me até um espaço que me pertence, até um tempo que guardo eternamente.
Imagino antes de adormecer, um mundo fotográfico que me aquece o coração e me mantém erguido! Fantasio histórias carregadas de personagens que se vão cruzando no meu caminho, colocando-lhes na mão um papel que infelizmente não representam.
Perco-me na imaginação, nas contas somadas na minha cabeça, nos totais que constantemente são positivos. Sorrio num mundo de sonhos despertos no meu leito, em carícias a um, em que abraço o meu próprio corpo com os braços de outra pessoa.
Relato descrições minuciosas, e chego a partilhar diálogos que se perdem nas horas… Esses ponteiros que vão caminhando no lado oposto do meu andar! Tento pregar rasteiras aos relógios para que parem, mas nunca consigo mais do que um segundo de felicidade. Por isso, aqui, em mim, neste paraíso encantado, em que apenas habita a minha existência e as milhares de pessoas que pretendo, posso parar o tempo, fazer com que o mundo não gire mais, com que as estrelas apenas iluminem a minha casa. Aqui sou eu quem possui o comando da vida!
E não pretendo escutar o que me magoa, o que me fere, o que me rasga a sobrevivência. Quero apenas inundar-me de momentos regados de paixão. Aqui digo basta a esta solidão! Deleito-me com um corpo que me ama, beijo uma boca que ferve paixão por mim, abraço partículas que me fazem desejar dali não mais sair! E em tudo isto, consigo retribuir o que me dão, tenho a oportunidade de não fingir.


Preciso tanto de sentir algo perto de mim. Largar as mãos á volta do mundo, e sentir que existe alguém que nelas segura. Continuo a adormecer... em mim, para não me magoar!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Por onde anda esse amor?



Amor? Pareces-me distante, perdido… onde estás?
Um destes dias dei por mim, a andar sem destino, numa rua desconhecida. Olhei em redor, a tentar captar a informação que era enviada para o meu cérebro. Aí, apercebei-me de que estavas presente em todos os recantos dessa partícula da cidade. No calceteiro que docemente embriagava as pedras na calçada. Numa porta trabalhada por alguém, que gentilmente adocicou a madeira com desenhos de uma belle époque. E até na senhora velhinha, que espreitava meigamente o presente de uma cidade que já só recordava um passado distante.
Fiquei por momentos feliz, por perceber que afinal, tu, não existes apenas entre duas pessoas, que não vives somente quando os adolescentes choram um desgosto amoroso. Sobrevives e existes nas partículas mais infinitas que possamos imaginar, e encarregas-te de ser transportado nas veias que envolvem o nosso corpo. Aqueles a quem se chama ser humano.
Mas esta felicidade desvaneceu-se rapidamente, pois se por momentos fiquei deliciado com esta capacidade humana, de fazer crescer rosas no oceano, olhei mais profundamente e verifiquei que caminhas numa luta exaustiva contra um rebelde tirano, que te tenta tirar do pedestal ao qual pertences.
Ao fundo, num jardim, uma criança maltrata um menino com palavras de escárnio por este estar a brincar com bonecas. Na porta de um café, o dono grita desesperadamente, numa tentativa de expulsar um cliente alcoolizado, espirrando raiva dos poros faciais. No passeio, um pobre chora com fome… Onde estás tu agora? Apenas pertences a uma parte desta vida? E a outra? Fica assim jogada nos dedos cruéis de outros sentimentos que te ofuscam na sua negritude?
Por entre tamanha dualidade de situações, coloco as mãos no meu coração e encontro a razão de não desistir de te encontrar! Aqui reside toda a chama que me aquece, toda a força que necessito para não desistir. Posso até dizer que estou cansado, que quero parar de procurar com uma lupa, minuciosamente, a tua morada. A verdade é que quando chega a noite, sinto receio de viver para sempre sem saber de ti, sem te sentir a meu lado, sem respirar a tua respiração calma que me dá paz e tranquilidade.
Quero na verdade estar completo por essa tua aura que me faz sorrir quando a chuva cai lá fora, que me faz chorar quando encontro uma realidade igual à minha, coberta de amor. Quero que me esbofeteies com esse teu vapor de harmonia, quero encontrar-te!
O teu paradeiro não vem nos mapas. Muitos já ouviram falar de ti, outros já nem te podem ouvir, e alguns, tal como eu, não desistem de sorrir a imaginar a tua chegada, um dia… Mas não te encontro, não ouves a voz de quem te ama, de quem quer ser possuído por ti, de quem anseia que outro alguém se deixe envolver nos teus tecidos de seda carmim, por mim!
Escuto músicas que te louvam, vejo filmes que te representam, leio cartas que te descrevem, mas não te sinto… nem ao de leve, como se fosses invisível e muito frágil, como se não quisesses ser magoado. Já percebi que permaneces escondido, por aí, como um forasteiro sem tecto, sem paredes, sem casa. Manténs-te a monte, por entre gentes que nem soletrar o teu nome conseguem, ficas onde não és desejado, baralhas os dados e voltas a dar números que não fazem sentido! Vem, não temas que te maltrate. Prometo que farei com que esqueças toda a solidão que já viveste. E trás contigo aquele olhar brilhante, aquelas mãos que me agarram quando desfaleço, aquele suspiro que me arrepia a nuca, a pele suave molhada por gotas de algodão… o amor que me faz esquecer o amargo que sinto no paladar!


Deixa-me encontrar-te!

domingo, 6 de janeiro de 2008

Um começo que recomeça


As primeiras palavras deste novo ano, o primeiro raciocínio que se vislumbra na minha mente. As sílabas melódicas que se vão soltando no meu ouvido, e eu sentado neste divã, pernas cruzadas, divagando com a caneta que tão gentilmente tantas vezes utilizo para patentear o que sinto…
O dia já amanheceu e consigo deixou para trás mais uma noite de viragem, uma noite de marcação, a noite das doze badaladas, das doze passas, dos desejos! Esses desejos que a noite registra em uníssono e que nos deixa a sonhar com uma possível realização.
Por agora já todos dormem, ou pelo menos exigem isso dos respectivos corpos, e eu, este divã, a caneta, o dia que já amanheceu lá fora.
A natureza envolve a acção desta passagem, coberta de misteriosos sons, de doces cores, da neblina que por vezes nos cega, do frio normal para a época do ano. Eu, sentado, o quente do meu corpo!
Preciso levantar-me, ou será que não? Valerá a pena adormecer num dia em que se comemora por ser o primeiro do ano? Deixa estar, é preferível permanecer assim, a colorir de cor a primeira tela.
Estou confuso. Não sei se escrevo porque é belo estar assim, em plena comunhão com o meu próprio ser, sozinho numa casa repleta de gente adormecida, ou se porque simplesmente necessito de depositar nas páginas parágrafos soltos de palavras embebidas em tinta de amor! Em ambos os casos sinto-me feliz. Sorriu por algo que não sei explicar. Apenas sinto em mim um poder infinito e prevejo que chegam novos momentos de felicidade. Pode ser o acaso, pode apenas ser pura fantasia recheada de desejos e vontades por realizar neste novo capítulo, a certeza não existe, e isto é apenas o que sinto! E o que sei? Um ser infinitamente complexo de atitudes!
Esta casa antiga, desconhecida, serve de palco para esta passagem. E esses sons que por vezes se vão soltando, como que a reclamar a invasão por presenças nunca antes sentidas. Não me assusto! Apesar de estranhos, acolhemo-nos neste deserto que ainda vive lá fora, no silêncio que permanece cá dentro. E abraçamo-nos, sem nos conhecermos. Tocamo-nos numa dança solitária, compreensível, aconchegante… Afinal, não somos assim tão diferentes. O que nos distância são estes poucos anos que tenho, e esses tantos que se perdem que possuis.
Já não existem palavras… Fico assim nas primeiras horas… Num silêncio profundo… Num encontro!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Depressão!


Isolado numa sala fechada! O corpo sente a pressão de não conseguir respirar, e já tudo começa a girar na minha cabeça. Sinto os dedos dormentes, as pernas com falta de uma força anteriormente extinta e um sabor amargo a mágoa e rancor.
Quero erguer-me, aproximar-me um milímetro da saída, mas o meu corpo já não responde às ordens deste cérebro em decomposição.
Estou num paradigma de fadiga e raiva que me consomem por dentro e expelem faíscas salgadas de lágrimas nos meus olhos. Deparo-me num caso de solidão que julgava inexistente nesta vida tão embriagada de doces momentos sociais. E agora verto um corpo numa casa despida de requinte, uma alma nua que só precisava de ser abraçada.
Afastado, sozinho no parapeito da realidade diária.
Chego a ter a casa cheia de um vazio que já não chega para me preencher, no entanto é a razão que me faz continuar. Mas que importa? É suficiente ver que aparento uma máscara de fortaleza para que tudo se mantenha conforme está.
Aqui estou, sentado, um cigarro, uma música que me faz chorar, uma solidão que quero pisar com os dedos das mãos. Fazer desaparecer esta vida que corre nas minhas veias e fazer surgir aquela que sonho até quando estou acordado.
Afastei um amor, um sofrimento causado por não ser capaz de retribuir. Amizades que se criaram, vidas que se separaram, e tudo o que tenho agora é uma mão cheia de nada. As conversas que tenho a um são deprimentes e já me acho ridículo! Tantas hipóteses, tantas tentativas falhadas, tanto e tão pouco que só me apetece bocejar com esta depressão.
Arrasto-me numa estrada perigosa onde o sol não consegue penetrar nas nuvens negras que pintei. E se sou eu o dono deste pincel mágico, porque não consigo pintar o que quero? Sim eu sei, não saber desenhar não ajuda, mas se tantos conseguem pintar e nem pegam no pincel, o que faço eu aqui fingindo que sou pintor? Rasgo a tela…
Depressão! Aqui estás sentada no vão das minhas escadas. Entras-te por uma porta que não quis abrir e deitaste-te comigo numa cama de raiva e pensamentos negativos.

Sinto que o meu corpo pertence a outro ser, que deixei de comandar a minha vida! Vejo a minha alma colocada de lado e o meu corpo a ser jogado como um fantoche nas mãos de alguém que desconheço. Não quero estar assim, preso com uma fita adesiva como se fosse uma encomenda perdida. Preciso de lutar contra este pertence invisível que me prende os movimentos, que me sufoca, que me deixa imóvel!
Desconheço de onde veio esta força redutora, é transparente perante uma visão cega por não querer acreditar na resposta que é dada, nem sequer escuto qualquer som quando chega. O único sentido alerta é o toque, esse que deixa de existir para ser domado por algo inexplicável! Real? Imaginação? O meu físico a reclamar por um vírus perigoso? Apenas sei que tenho medo que a noite chegue, que o facto de precisar de dormir se torna num fardo assustador porque não quero voltar a adormecer com receio de me sentir preso novamente!
Começo por tentar não pensar em nada, levar o meu pensamento para bem longe do que está a acontecer. Tento ir dormir quando as forças padecem e se desmoronam, mas mesmo assim, no momento em que estou a chegar ao local encantado dos sonhos, sou colocado entre a espada e a parede e fico desperto num imóvel doloroso! Acordo assustado mas não me consigo mexer. Sei onde estou, sinto o meu habitat à minha volta, mas o meu corpo não responde ao comando do cérebro. Tento abrir os olhos, em vão, quero falar, sem som, revirar o corpo… sinto-me morto! Fico num silêncio perturbador com um peso sobre o meu corpo, numa batalha para tentar um movimento que seja. E assim permaneço num tempo que desconheço as horas, em minutos que não conto os segundos, num momento que me parece eterno!
Se tivesse sido um acto isolado, se esta acção não se tivesse tornado constante, talvez me mantivesse inerte a esta questão. Mas esta situação insiste em penetrar a minha pele e possuir-me na noite que não quero que chegue.
Agora sinto que perco a minha vontade, que já nada importa porque não tenho desejo para nada. Olho-me no espelho e encontro um robot que responde ao comando da rotina. Sentimentos? Onde estão esses doces gracejos positivos que sempre fiz questão de manter na minha vida? Tudo o que me resta é esta vontade cortante de chorar e de me isolar do mundo. A única resposta que quero dar a tudo, é o silêncio…
Desisto de tentar entender o que querem de mim, o que se passa realmente neste momento com a minha alma, o meu corpo. Simplesmente deixo-me levar, entregando tudo o que tenho a esta prisão que desconheço o paradeiro! Desisto de lutar!

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Numa manhã de Março



Porquê relembrar uma ferida que se tenta fechar e sarar? Porquê insistir na dor, quando a vida lá fora nos sorri e nos tenta encaminhar para uma felicidade alternativa? Não encontro explicação para a decisão que tomei, ainda estou a tentar digerir tudo o que disse e fiz. Mas por vezes a resposta menos lógica, é a resposta mais segura! E de que adianta investir em algo, quando o sentimento não é correspondido e apenas estamos a pisar mais um palco da vida, a representar mais uma peça em falta de actores, figurantes… público.
Não posso dizer que não estou a sofrer, que tudo isto me está a passar ao lado, que não passou tudo de mais uma brincadeira ou um capricho meu. Não! Sabia o que queria, sabia que desta vez queria tentar, que tinha chegado o momento de assentar, mas não funcionou. E é sempre preferível levar o barco até um lugar distante e desconhecido, do que naufragar.
Quero tentar perceber o que quero, encontrar um rumo a este caminho que traço diariamente. Quero poder olhar no espelho e encontrar um reflexo seguro e não envolto numa teia de mentiras e sufoco.
Em ti encontrei por momentos um porto seguro, um farol que foi o meu guia, mas a chama apagou-se e tive que acabar por atracar noutro porto, sozinho! Lamento as lágrimas! As minhas, e principalmente as tuas… Lamento ter despertado um sentimento que repudiavas e que não querias sentir. Lamento a forma como tudo acabou. Lamento ter de me afastar de ti para te proteger. Mas quem disse que a vida é um jogo fácil de jogar? Estamos constantemente a sofrer os dissabores dos dados.
Quero que penses em mim como uma porta, como um tapete vermelho que te levou até ao mundo ao qual tu realmente pertences. Se não te pedir demais, vê-me como aquele que de alguma forma te fez quebrar as amarras do teu ser e que te ajudou, por pouco que tenha sido, a libertar esse medo que não te deixava livre.
Vamos combinar apenas lembrar os poucos momentos de alegria que vivemos, e aprender com todos os maus que passamos. Esquecer as horas em que gritei contigo por dizer tudo o que pensava e outras tantas em que me calava por não saber o que dizer, com medo de me mostrar. Vamos esquecer os nossos mundos tão desiguais, as nossas diferenças tão vincadas e o que ficou por dizer… Vamos lembrar aquele dia… O nosso dia!
Obrigado! Não quero que me digas mais nada. Não me respondas. Apenas te quero dizer isto. Obrigado! Por me teres feito, num momento mágico, sentir especial, único, teu. Por me teres feito perceber que afinal não sou o objecto que pensei um dia ser. Obrigado por me amares, por estares comigo, por tanto e tão pouco que fizeste por mim.
Mas o jogo terminou e numa manhã de Março, lancei a última cartada. Quero que percebas que a minha decisão em nada esteve relacionada com terceiros e muito menos com um passado flutuante que já esqueci! Terminou, apenas isso.
Uma matilha de soluções, disparadas por uma garganta arranhada, infectada, engripada. Detalhes de uma constipação mal curada que originou uma pneumonia. E agora os médicos temem o pior! Mas porquê? Porque não tomaste o antivírus? Porque não houve precaução? Já não adianta, o paciente corre para os cuidados intensivos.
Explode o padrão com contornos de raios solares, tocando o que sou, iluminando o meu caminho. Luz? Incertezas constantes disfarçadas de uma certeza absoluta. Por agora, é isto que quero. O que pretendo é prosseguir como nunca quis. Sozinho.
E chovem rosas e margaridas, e cores pintadas aqui e acolá. Colam-se figuras dispersas nesta tela que é a vida.
E correm as veias, que percorrem todo o meu corpo, e se isolam numa espécie de tráfego em hora de ponta.
E reconheço caras, sons e sabores.
E parece-me tudo tão amargo, tão demasiado doce…
E esta consciência que não para de me atormentar o sistema. Que me confunde, e ora diz que sim, ora diz, tem cuidado. Mas de quem foi a infeliz ideia de a personificar num grilo? A minha devia ser um caracol, lento! E quando vê o perigo, fecha-se em casa.
Escrevo e não quero parar de o fazer. Escrever. Não quero deixar de gritar a minha dor. Não posso terminar, nunca, este diálogo interpessoal. Embora já não saiba o que quero! A dúvida transformou-se na minha sombra e agora não consigo ser uma espécie de Lucky Luke. Ela é mais ágil! Maldita!
Molhar o retrato em tinta-da-china, com gotas de oceano. As gotas! Essas ardentes lágrimas que brotam do meu coração! Encontro aqui, nesta bola de cristal, frágil, laranja fogo, um pequeno recanto para a minha solidão. Coisa rara! Uma espécie de magenta que se mistura no ar e retrata a molécula da minha existência.
Toque… carícia suave que me toca e sente. Estavas aí, no leito do meu ser, enroscado num ecrã transparente criado por mim.
Fim de tarde! Princípio de um final que não se deseja. Os dois, unidos numa nuvem de romance e paixão. Colocas-te o meu corpo na ponta dos teus dedos, e fizeste-me voar para lá do meu próprio desejo. E aí senti-me seguro! Segurança que mais tarde repudiei e que afastei com medo de sofrer, com medo de mim.
Agora estou aqui sozinho, a relembrar um momento que podias repetir vezes sem conta. Silêncio! Já não sei o que dizer… Vou limitar-me a soltar o meu pensamento e deixar transparecer em páginas de papel solto, o que quis com desejo, num passado tão presente, tão distante de um futuro. O nosso futuro!
Que encontres a felicidade um dia, e que eu não tenha sido o culpado de uma reviravolta na tua personagem. Não coloques em mim a culpa das tuas próximas decisões, das tuas atitudes vindouras. Aprende comigo a lição que tens a aprender, depois caminha. Sendo tu próprio o destino das tuas escolhas. Que a vida nos acolha no mesmo braço e nos volte a fazer sorrir.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Esperando por ti...




Esperando por ti, aqui nesta cadeira, nesta mesa, neste café por entre tantos, escolhido por ser um lugar comum. O ponto de encontro!
Esperando por ti. Um cigarro.
Esperando por ti, reparando sempre nas horas, olhando constantemente para o telemóvel que não toca, uma chamada tua que não chega.
Esperando por ti e este sufoco que se transforma num nó pesado, metálico, quase forca quase morte.
Esperando por ti. E o sol brilha tentando aquecer um frio que se instala lá fora, cá dentro.
Esperando por ti. Tocou! Corri para ver, ânsia cruel. Não eras tu… Onde andas? Espero por ti… Na companhia de uma folha de papel, caneta e esta música saborosa, suave, quase melancólica. E mais um cigarro.
Esperando por ti. Surgem as questões! Será que devo esperar? Será que aconteceu algo? Por onde andas? Será…? Logo agora que não tenho forma de te contactar.
Esperando por ti. Quase grito! Mas tento manter calada a voz, soltando-a em breves palavras esbatidas neste pedaço branco e traçado. Forma de expressão constante, amiga.
Esperando por ti!
Ainda continuo aqui, onde era suposto estares. Ponto de encontro. Mas tu não vens… E eu aqui!
Esperando por ti, esta porta que se vai abrindo trazendo para dentro o frio que se sente lá fora e que me toca, compreendendo-me, igualando-me.
Esperando por ti. Torna-se difícil esperar.
Tocou! Eras tu. Afinal estás aí… e não aqui! Aviso de que virás mais tarde, onde fico novamente à tua espera. Novamente…
Esperando por ti! Cansa-se a dor, canso-me deste cansaço constante, desta complexidade que não me deixa raciocinar.
(Esperando por ti.)
Fraquejo por não saber se serei capaz. Atormentam-me as dúvidas. Perdido, à deriva, como quem chama por mim sem ter uma voz familiar.
Esperando por ti! E a cidade através do vidro continua no seu movimento, na sua rotina de hoje, igual à de ontem. Ninguém espera por mim. Ninguém espera comigo! Sozinho aqui, esperando por ti.
Esperando por ti, repito-me como que num reflexo constante do que faço, delimitando esta leitura. Sim espero por ele!
Mais um cigarro.
Escuto o céu…
Esperando por ti. A pausa foi demorada. Alongada pela tentativa de criar uma montagem, um seguimento nesta história que podia ser como outra, mas não é! É desta. É o que se vive agora. Real. Presente e sabida. Vivida.
Esperando por ti! Ainda não estás aqui e vão voando os minutos que se transformam em horas porque um dia assim alguém o quis. Mas afinal quem fez o tempo? Só serve para nos fazer esperar.
Esperando por ti. E começo a desesperar. A entrar em conflito. A arrancar esta camada que protege os meus músculos. Vem, por favor! Faz-me acreditar que vale a pena esperar, que serei feliz e que tudo acabará por se transformar numa meiga vitória. Uma lágrima que cai… e é a última!
Esperando por ti, tanto por fazer, tanto para batalhar e construir. Quero acreditar que este tempo não é desnecessário, perdido. Quero acreditar que valerá a pena esta espera penosa que me cansa e me coloca à prova.
Esperando por ti. Preciso de ti aqui, mais do que nunca! Não entendes que me sinto a desfalecer? Não vês que começo a ausentar-me? É tudo tão novo e já me sinto a escapar. Obrigo-me a não desarmar, a continuar, a esperar.
E se espero por ti! Tanto que quase fui eu que defini e criei a espera. Quase que crio o tempo. Desespero e prendo a fonte que se criou no meu olhar, não por vontade, mas porque aqui nasceu. Porque me sinto perdido? Porque não sei o que fazer.
Esperando por ti. Na esperança que venhas num embalo de luz. Que com apenas um sorriso me faças esquecer tudo isto. Apagar esta espera da minha mete, ficando apenas guardada na minha caixinha de recordações.
Esperando por ti… Nem um sinal de ti! E as músicas que se vão repetindo, o braço que reclama por descanso, este lugar que se torna irritante. Estas vozes que se transformam em pedras nos meus ouvidos. Tudo isto que começa a perder o encanto… Pensar que sorri como num sonho quando aqui cheguei! Mas agora já é tudo pesado. Simplesmente porque espero por ti…
Esperando por ti. Já não sei se espero porque sou sádico, se para vislumbrar o terminus de tudo isto! Porque espero? Por amor? Por vontade de estar contigo? Mas como se já nem isso para mim faz sentido. Se pelo menos viesses, já estavas. Podia tentar resolver o que sinto e não sinto. Podíamos escutar-nos, tentar sair daqui.
Esperando por ti! E era hoje que talvez se pintasse algo neste quadro. Mas tu não vens…
Esperando por ti! E por ti me alongo aqui, me adianto tanto nas palavras. Que fazer? Não vens, não paro, o sentimento cresce, sente vontade de expor-se assim ferido, sem sentido!
Esperando por ti! Quantas horas? É tarde… Não vale a pena insistir. Desiste quando tudo já não existe. Chegou o momento. Investe apenas no que vale a pena e se não valer, valha-nos a aprendizagem!
Esperando por ti? Já não…
Não esperes por mim agora. Não quando me tiveste e não me valorizaste! Fui teu… Mas não foste meu…
Esperei por ti!

sábado, 15 de dezembro de 2007

Amarra


Seria tudo tão mais fácil… se pudéssemos voar por cima de um campo aberto. Soltar o cabelo, porque não tínhamos elástico. Viajar sem destino, sem dar contas a ninguém. Seria tudo tão mais fácil, se o sol brilhasse a toda a hora para poder iluminar todos os corações que se fecham na penumbra da noite, se encontrássemos um espelho, sempre que é necessário mostrar o que são a quem é, se fosse possível retirar do mundo toda a poeira que nele se instalou…
É na luta por um lugar ao sol, na tentativa de se conquistar algo que devia ser de todos por direito, que nos encontramos nas entranhas de uma rima emparelhada! Quando olhamos para todos os lados e só quando tentamos andar é que vemos que temos o pé preso. É numa gruta na ilha Ítaca, que verificamos que somos menores, que não temos por onde ir, que nos sentimos amarrados!
Não vale a pena tentar procurar uma saída, tentar encontrar uma chave para a tal porta que não existe, um mapa que nos mostre o x, uma bússola que nos indique o caminho, um sinal de fumo que nos mostre companhia. A resposta ao enigma está tão à mão de semear, que até parece comédia ver quem a procura.
Mas estamos cegos, estamos enclausurados numa bola transparente de vício e de horror. De encantamentos disfarçados de mentiras. De segredos desbocados, que somente nós não os queremos ver. E já é demasiado tarde para não sofrermos. Demasiado retardado este caminhar que há muito devia ter ficado pregado ao chão. Quisemos investir num conto de fadas? Pois bem, agora a Bela Adormecida despertou, e de princesa nada tem!
E é tão plástica esta amarra. Tão frágil e tão pesada. Tão irritante e transparente! Ai se eu soubesse que seria tudo desta forma. Se eu antevisse que o relógio iria marcar meio-dia quando era meia-noite. Damos tantas voltas para tentarmos desfrutar de um pedaço de terra, para depois chegar um vapor de vento e roubar o que trabalhamos para ter.
Não vale a pena andarmos com rodeios, com complexidades. Podemos dizer a palavra simples com simplicidade, mas acabamos sempre por pintá-la de tantas maneiras. E para quê? Para nos magoarmos ainda mais?
O que falo aqui é de amor! Aquele que nos prende e baralha. Aquele que nos amarra a uma ínfima parte do universo. Que nos arrasta na cauda de um cometa. Que nos tortura sempre que tudo corre mal. Expresso o que é chegar ao final do dia, e vermos que a nossa luta foi em vão, pois o outro lado trata-nos com tal desprezo, que nos sentimos então, pequenos na ilha de Ítaca.
E é tudo tão verosímil que chega a fazer cócegas no cu de Zeus! É tudo tão subjectivo, que até a palavra tão se torna pequena, na ilha de Ítaca. E o tal Ulisses que não regressa do mar para nos salvar… Se eu pudesse voltar atrás, tantas decisões que não teria tomado, tantas jogadas que teria levado até ao fim. Mas agora já é tarde, e tenho de saber lidar com o que tenho e tentar ser feliz.
E eu que só queria dizer que é sufocante estar amarrado a alguém desta forma. Que quero quebrar as amarras e não consigo. Liberta-me! Deixa-me seguir a minha viagem. Se tiver de ser sozinho, que seja. Só não me trates como um boneco inanimado, sem vida e sentimentos. Sou mais do que isso. Sou aquele que em tão pouco tempo se esforçou para levar a um bom porto este barco. E se eu remava sozinho. Agora já não sei. Estás aí especado a olhar para mim, a veres-me espumar raiva dos poros, e não fazes nada.
E seria tudo tão mais fácil… Se mudasses esse teu mundo tão pequeno, tão mal construído, tão em falta de bons alicerces. Se desejasses mais, e trabalhasses em prole disso. Se não me dissesses que gostas de mim, e mostrasses o contrário. Seria tudo tão mais fácil! Agarrar o ar que respiras e fazer dele bolas de sabão. Fazer gelo da água que escorre do teu coração. Bater nessa tua cabeça dura só porque me apetecia. Seria tudo tão mais fácil… mas não é!
E a amarra contínua amarrada a mim, a ti, a nós!
Ajuda-me para parecer que o que faço não é em vão. Que o que quero não é descabido. Que afinal, há um sentido para tudo isto.
Desamarra-me!